O Educador em Meio à Burocracia

É comum ouvirmos reclamações do trabalho dos professores. Que eles poderiam ser mais dedicados, animados, dispostos e preparar aulas mais instigantes e atraentes. Que poderiam dar uma atenção maior e personalizada ao aluno. Que poderiam estar constantemente se capacitando e se desenvolvendo em um processo de formação contínua. Que deveriam exercer o seu trabalho com alegria, entusiasmo e simpatia. Tudo isso é bom e certamente os maiores interessados são os próprios educadores. Afinal, qual trabalhador, independente da sua área, não quer exercer a sua profissão da melhor forma possível?

No entanto, há algo que a maioria das pessoas que não atuam na educação não sabem: o professor possui uma burocracia enorme para dar conta fora da sala de aula. São inúmeras planilhas, registros, relatórios e tabelas que precisam ser vencidos, sem contar a comunicação virtual através de e-mails e grupos de aplicativo que muitas vezes consomem uma boa parte do seu tempo. Isso não é uma mera reclamação, e sim, uma busca por uma educação de qualidade que proporcione aprendizagem aos estudantes, e resgate a identidade profissional do educador e valorize a sua humanidade.

Um professor de Matemática, Ciências, Linguagens, História, Geografia, ou Artes é alguém muito interessado na sua área de ensino. É muito provável que ele tenha um grande gosto por isso, pois estuda e trabalha na área há anos. Um dos grandes problemas da grande carga burocrática imposta ao trabalho do professor é que ele pode passar a não entender mais o porquê ele está fazendo o que faz. Na sua formação, não lhe foi dito que passaria grande parte do seu tempo preenchendo quadrados e completando formulários, mas sim que faria a diferença na trajetória escolar de crianças e jovens através da mediação do conhecimento da sua área de ensino junto e de uma influência positiva no desenvolvimento deles.

É importante salientar que estamos falando do excesso de burocracia no trabalho docente, que tem sido muito comentado por professores de escolas públicas e privadas, e não dos registros necessários que naturalmente fazem parte do seu trabalho. Infelizmente, relatos de adoecimento, desânimo e transtornos familiares não são incomuns na vida dos educadores. Muito disso porque eles precisam usar muito do seu tempo pessoal com essas questões burocráticas.

Diante dessa realidade, o que o educador pode fazer para permanecer firme na sua disposição em ser excelente no que faz, pensando principalmente na aprendizagem dos educandos?

  1. Manter o trabalho dentro da sua devida importância. O trabalho é fundamental na vida de qualquer pessoa, pois é necessário para a provisão financeira e a realização em relação aos seus desejos profissionais ou vocacionais. Contudo, existem elementos que são anteriores ao trabalho e que são elementares na vida de qualquer ser humano. Tudo o que leva ao cuidado e à saúde física e mental de si mesmo e de sua família é anterior ao trabalho. O trabalho pode passar, mas a sua pessoa e familiares, não. Afinal, “o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor”.[1] Isso significa que ações devem ser tomadas para que esse cuidado seja preservado, o que pode significar diminuir a carga de trabalho, ganhar menos e, até mesmo, como última opção, não cumprir com determinadas demandas. O que vale mais, estar bem no trabalho ou ter saúde pessoal e familiar? 
  2. Organizar-se. Isso não é tão simples para todos, mas os professores normalmente conseguem se sair bem nesse ponto. Organizar a rotina e determinar o momento e, se possível, o tempo em que passará atendendo às questões burocráticas podem otimizar essa demanda.
  3. Não perder o foco da sua atividade-fim. O que é mais importante, o preenchimento dos relatórios em dia ou a aprendizagem dos estudantes e a atuação do professor na sala de aula? Para mim sempre foi muito claro que é a segunda. Acho complicado sacrificá-la em função da primeira. Por mais que quem viva o dia a dia da profissão saiba que às vezes a realidade é bem mais difícil do que parece ser, sugiro que o educador pense a sala de aula como um local “sagrado”, onde todos os pareceres e registros ocorrem em função dela. Os alunos merecem o melhor professor possível.
  4. Fazer o que estiver ao seu alcance para diminuir a burocracia nas demandas de trabalho do professor. Como diz o professor e historiador Leandro Karnal:

… a escola do futuro precisa desburocratizar-se. Parte fundamental do esforço do professor é preencher cadernetas, lançar notas, organizar tabelas e relatórios. Esses procedimentos podem ser, muitas vezes, automatizados. O tempo que se perde com uma chamada é espantoso! Os profissionais da educação devem ser mais livres para educar. O treino para ensinar é árduo e mais desafiador do que preencher quadrados. Não se deve ocupar todo o tempo do médico, do professor ou do engenheiro longe da atividade-fim. A tecnologia pode servir de ferramenta para registrar presença ou digitar notas e calcular médias e reservar ao humano aquilo que somente o humano pode realizar.[2]

Os professores devem, sim, lutar para que este erro: o excesso de burocracia, não persista. Isso deve ser feito com ética, respeito, submissão às lideranças, humildade, mas precisa ser feito! Deve-se falar, expor o que se sente e tomar as atitudes possíveis para que a profissão docente seja algo bom para os alunos, comunidade escolar, mas também para o próprio professor.


Thomas Rates Pierosan

Thomas é professor de história da rede privada e pós-graduado em “A Moderna Educação: Metodologias, Tendências e Foco no Aluno” pela PUC-RS, escrevendo seu o seu TCC sobre “Aprendizagem Excelente Requer Professores Excelentes: reflexões, críticas e propostas de soluções ao excesso de burocracia nas demandas do trabalho docente”.


[1] Frase de Jennifer Nias, citada em NÓVOA, António (Org.). Vidas de Professores. Porto: Porto Ed., 2000. (grifo nosso)

[2] KARNAL, Leandro. O Futuro da Escola. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 jun.  2018.

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