Conectando o Livro de Deus com o Seu Mundo

(reflexões sobre integração bíblica)

Explorar ou aprender sobre qualquer coisa no mundo de Deus sem considerar a revelação dos planos e dos propósitos de Deus para a Sua criação é tolice. Mas, claro, você sabe que a Bíblia, a palavra de Deus, é importante. Obviamente, qualquer coisa que alega ser centrada em Cristo deve ser baseada nas Escrituras ou é apenas fruto da nossa imaginação. Mas qual é exatamente o papel da Bíblia na educação? Por que muitos alunos lutam para ver a relevância da Bíblia? Por que muitos professores acham que é mais fácil ter uma interação transformadora com seus alunos fora da sala de aula do que no estudo detalhado do que Deus criou, onde Romanos 1:19-20 diz que o poder e a natureza de Deus podem ser vistos claramente?

Há vinte anos, fui convidado para dar um curso de uma semana de duração sobre  Integração Bíblica em Bratislava (Eslováquia), e não tinha ideia do que diria. No entanto, preparar-me para esse evento foi uma reviravolta numa jornada que continua até hoje.

Minha jornada

Eu cresci em um bom lar cristão. Meus pais estavam sacrificialmente comprometidos em contar às pessoas sobre a necessidade de um Salvador. Devocionais em família com a leitura da Bíblia faziam parte da vida normal, assim como o envolvimento ativo em uma grande igreja local. Depois do ensino médio, frequentei a faculdade bíblica, mas tive dificuldades porque a minha profissão escolhida — cientista — parecia não ter lugar no “ministério cristão”. Foi necessária uma palavra quase audível de Deus para me mover em direção a uma carreira que combinava os meus interesses e dons com a “obra de Deus”: ser um professor missionário. Naquela época, sem contar que eu iria para o exterior para ensinar ciências, eu tinha apenas um vislumbre do que isso significava.

Depois de três anos de Bíblia e teologia, me formei com todas as qualificações acadêmicas para ser pastor ou missionário em tempo integral, mas foi só depois de tudo isso que comecei a perceber que a Bíblia tinha algo a dizer sobre tudo na vida — coisas como leis de trânsito, finanças e ciências. Acabei lecionando na Black Forest Academy (Academia da Floresta Negra), uma escola internacional cristã na Alemanha, mas levei 20 anos antes de finalmente começar a ver como o que eu ensinava poderia ser relacionado à palavra de Deus de uma forma que fizesse sentido para mim e de uma forma que eu pudesse comunicar aos outros.

O que há de errado com esta imagem? Está claro pela minha experiência que a presença da Bíblia, o conhecimento dela, ou mesmo o seu estudo, por si só não garantem que alguém faça conexões intencionais entre tudo na vida e no aprendizado, por um lado, e Deus e a Sua palavra, por outro. A coisa mais crítica que aprendi naquela semana de 1998 em Bratislava foi parar de tentar encontrar versículos bíblicos para encaixar nas minhas aulas de química, e começar a pensar cuidadosamente sobre como a química — e tudo mais — se encaixa em quem Deus é e no que Ele está fazendo. Isso exigiu uma mudança de 180 graus no meu pensamento. Foi aí que descobri pelo menos dois sintomas de um problema debilitante no meu “piloto automático”, aquela visão que tenho do mundo, quando não estou pensando conscientemente sobre ele, mas que mina o papel da Bíblia no meu ensino.

Uma Compreensão Limitada de Redenção

O primeiro sintoma que comecei a reconhecer foi uma compreensão limitada da redenção — “É tudo sobre mim.” Eu tinha ouvido falar muito sobre a redenção em Cristo, mas de alguma forma meu conceito de redenção era muito pequeno. Não era tão grande quanto o escopo da criação de Deus ou do pecado do ser humano.

Provavelmente, o versículo de salvação mais conhecido na Bíblia é João 3:16: “Porque Deus amou o mundo…” Mas eu não tinha pensado sobre tudo o que isso significava. Por exemplo, o que “mundo” quer dizer? Em 1João 2:15, o mesmo autor diz: “Não amem o mundo nem o que nele há”. Como os dois versículos podem ser verdadeiros?

Por que João nos diria para não amar o que Deus ama? Parece que devemos ter cuidado com nossas definições, pois há pelo menos dois “mundos” muito diferentes sendo abordados aqui. Um texto fala sobre o sistema moldado pelo pecado que tenta funcionar independentemente de Deus, negando Seu envolvimento e ingratamente se apropriando de forma indevida dos Seus dons, e o outro, fala sobre pessoas, certo?

Por que Deus não esclareceu a confusão quando revelou Seu coração a João e o inspirou a escrever as duas passagens? Por que João simplesmente não disse: “Porque Deus amou as pessoas…” Deus queria incluir mais sobre Si mesmo nesta revelação? Que tal “Porque Deus amou tanto a terra e tudo nela, incluindo as pessoas?” Afinal, Ele fez todo o universo com muita criatividade, beleza, e até mesmo senso de humor, e então colocou pessoas em Seu mundo para cuidar e desenvolver tudo. Deus ainda ama tudo o que Ele fez, embora o pecado das pessoas tenha causado tanta dor, destruição e morte? Acreditamos que a redenção envolve TUDO?

E se João tivesse escrito: “Porque Deus amou as vacas…”? Isso soa como um sacrilégio? Considere o que Deus disse ao evangelista mais famoso e bem-sucedido do Antigo Testamento. Jonas pode ter ficado relutante, o que é compreensível se lembrarmos que sua missão era semelhante a enviar um judeu messiânico a Teerã hoje para uma cruzada evangelística ao ar livre. No entanto, em três dias, centenas de milhares de pessoas se arrependeram e o curso da história foi transformado. Você lembra que Jonas não ficou satisfeito com os resultados. Ele não acreditava que os “cães” gentios deviam ser salvos. Na sua mente, eles nem mesmo se qualificavam como “gente”. Então, no final do livro, Deus teve de dar uma lição e revelar Seu coração ao relutante evangelista. “Não deveria eu ter pena de Nínive, aquela grande cidade com mais de 120.000 pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda” — crianças com menos de 3 ou 4 anos de idade — “além de muitos rebanhos”. Deus ama Suas vacas em qualquer uma das inúmeras colinas em que possam estar vivendo agora, como os salmos de Davi e Asafe nos confirmam (Sl 36:6; 50:9–10).

Não há nada em toda a criação de Deus com que Ele não se preocupe e que não seja cuidado por Ele, mesmo que as pessoas valham mais do que qualquer outra coisa. Jesus confirmou que as pessoas valem mais do que muitos pardais (Lucas 12:7), mas isso não dá a ninguém o direito de usar indevidamente ou desvalorizar a menor parte da Sua criação. Como disse Abraham Kuyper: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre todos, não clame, ‘é Meu!’”

Mas seria isso apenas uma ideia do Antigo Testamento? Romanos 8 é bem conhecido e o versículo 28 é frequentemente citado (“sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos foram chamados de acordo com o seu propósito”), mas os versículos 19–23 não parecem ser tão populares assim:

A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo.

Toda a criação está esperando pela libertação do pecado. Cristo não apenas redimiu pessoas, mas também removerá todos os efeitos do pecado da Sua criação. As pessoas estão em primeiro lugar, mas isso não exclui tudo o mais. Nosso entendimento da redenção deve ser tão grande quanto o de Deus. Em Colossenses 1:20-21, Paulo nos lembra que por meio de Cristo, Deus reconciliou consigo todas as coisas. Ele estabeleceu a paz com tudo o que está no céu e na terra por meio do sangue de Cristo na cruz. Certamente, isso inclui a humanidade que antes estava separada de Deus, mas obviamente não se restringe às pessoas. De alguma forma, interpretamos a Bíblia de modo que as boas novas que ela contém sejam apenas sobre nós, as pessoas, como se todas as outras partes da originalmente boa criação de Deus fossem completamente descartáveis.​

Uma Compreensão Limitada de Chamado

Mas a atitude “É tudo sobre mim” não foi a única evidência de uma Bíblia mal aplicada. O segundo sintoma do problema era uma compreensão limitada do chamado de Deus — “É apenas meu emprego.” 

Provavelmente todo mundo já ouviu algumas piadas sobre como trocar uma lâmpada. Mas falando sério agora: “Quantas pessoas são necessárias para Deus responder a uma oração?” Bem, provavelmente depende da oração, certo? Vamos considerar uma oração básica, uma que Jesus nos disse para fazermos: “Dá-nos hoje o nosso pão nosso de cada dia.” (Mt 6:11) Quantas pessoas são necessárias para responder a essa oração? Vamos tentar contá-las: o fazendeiro, o padeiro, o dono do mercado, o motorista do caminhão. Quatro? E quanto a todos os funcionários da padaria? Quem a construiu? Com o que eles a construíram? Quem fez o caminhão e o trator? De onde veio o metal para fazer o caminhão? Quem fez as estradas? Quem criou o dinheiro? Quem organiza as leis de trânsito? Quem arrecada os impostos para pagar as estradas? Quem desenvolveu a tinta do caminhão e do trator? Quem produziu a eletricidade para a loja? E de onde veio o combustível para o caminhão e o trator? Então, quantas dessas pessoas deveriam estar intencionalmente em adoração, servindo aos propósitos de Deus e sendo respostas das orações, ao atender às necessidades do seu próximo? Todos eles!

Em vez de encorajar a amplitude e profundidade do chamado de Deus, nos concentramos em alguns poucos. Elevamos aqueles com dons e funções especiais para equipar outros e agimos como se fossem os únicos servindo a Deus. Infelizmente, o trabalho da igreja acaba sendo definido como o trabalho dos líderes (Ef4:11–12) em vez do trabalho feito por todos os membros do Corpo de Cristo. Nossa visão dos propósitos de Deus para o que Ele criou e o que Ele fez para redimir todas as coisas pode ser completamente distorcida, mesmo quando estudamos a Bíblia, se não tivermos o cuidado de lidar com o pernicioso problema da divisão sagrado-secular. Deus se preocupa com o sagrado e com o secular.

Comecei a perceber como é devastador trabalhar a partir da premissa básica de que Deus só se preocupa com um subconjunto de Sua criação e um subconjunto da vida — o sagrado — e tem pouco interesse no resto — o secular. Se pensarmos assim, estamos preparando o terreno para todo o tipo de problema. Discutimos sobre um subconjunto cada vez menor de coisas sagradas, enquanto abandonamos cada vez mais as “coisas seculares” ao Inimigo. Deixamos o Mentiroso enganar a todos fora da Igreja, e quase todos dentro dela, sobre o que lhe pertence — nada — e o que pertence a Deus — tudo. Em vez de toda a criação direcionar nossa atenção para a bondade e grandeza de Deus, deixamos qualquer coisa da criação roubar a glória de Deus. Usamos indevidamente e destruímos o que Ele nos deu para cuidar e desenvolver, e matamos qualquer coisa que ouse restringir nossa míope visão da boa vida. Visto que absorvemos tantas maneiras não religiosas de ver o mundo de Deus, precisamos encorajar uns aos outros a ver além de nossos pontos cegos. Devemos continuar a boa obra que Deus deu ao ser humano no jardim, mesmo que os efeitos do pecado dificultem o cumprimento do nosso propósito dado por Deus de sermos mordomos de Seu mundo (Gn 1:26–27; Sl 8; 115:16).

A integração bíblica, essa conexão entre o mundo de Deus e a Palavra de Deus, envolve desenvolver os grandes temas da Palavra de Deus e não apenas escolher versículos bíblicos isolados para lições específicas. Tudo e todos têm uma parte no Reino de Deus, onde à semelhança de uma orquestra sinfônica, cada instrumento e cada melodia trabalham em harmonia, e são usados de forma criativa de acordo como o seu dom único. A integração bíblica traz todas as áreas da vida à luz da revelação de Deus para expor as mentiras que nos tentam a viver como ateus práticos, como se Ele fosse irrelevante em grandes áreas da vida. Não há disciplina escolar que não seja Sua disciplina, e nenhuma habilidade que não seja relevante para o Seu chamado para que todos os seres humanos governem bem o Seu mundo material. A integração bíblica visa equipar cada nova geração para florescer no mundo de seu Pai. Como um ato de obediência e amor sacrificial, os caminhos de Deus serão desenvolvidos, demonstrados e defendidos para um mundo que precisa desesperadamente do caminho, da verdade e da vida.

A integração bíblica não é um opcional, mas o cerne de cada vida vivida sob a autoridade de Deus. Certamente é essencial qualquer educação que busca transformar qualquer parte do mundo de Deus trazendo-o para o “Reino de Seu Filho amado” (Cl 1:13). A integração bíblica reconhece nossa necessidade da habitação do Espírito Santo para dar a todos os filhos de Deus o desejo e o poder de fazer o que Lhe agrada em tudo (Fp 2:13). A integração bíblica rejeita toda tentativa de separar qualquer parte do mundo de Deus da Sua influência. A integração bíblica tem a ver com viver em reconhecimento de que “dele, por ele e para ele são todas as coisas”. (Rm 11:36).


Harold Klassen
Consultor Educacional
TeachBeyond Global


Trad.: Raphael A. Haeuser

Texto original em https://teachbeyond.org/news/2018/06/whats-biblical-integration/

Fotos do texto por Black Forest Academy.

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