Educando Para o Desenvolvimento Pleno da Pessoa

A educação brasileira se propõe a ser integral, abarcando aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais, inclusive a formação de atitudes e valores éticos. Mais especificamente ela tem como propósitos declarados a preparação para o mercado de trabalho, o exercício da cidadania e o desenvolvimento pleno da pessoa.[1] Em outros textos do Didaquê, destacamos a importância da educação na preparação de trabalhadores qualificados e no exercício consciente da cidadania. Neste texto, vamos abordar o último e, na nossa visão, o mais importante deles.

Infelizmente a prática educacional atual é desequilibrada. Fala-se mais em produzir pessoas com autonomia intelectual, capazes de exercer pensamento crítico e reflexivo, e dotadas de boa formação técnica e profissional do que formar pessoas íntegras e éticas. Isso é preocupante, porque é somente a partir de pessoas de caráter e com uma boa formação moral que é possível termos êxito na promoção dos demais propósitos.

A formação ética do caráter ainda apresenta desafios adicionais para o nosso contexto moderno: não é mensurável. É relativamente fácil verificar se nossos alunos trabalham, ou exerceram a sua cidadania através do voto, mas como definir ou medir a formação do caráter? Além disso, caráter não “cai” no ENEM ou no vestibular, o que lhe dá, ainda que sem querer, um papel secundário.

A intenção deste texto não é tratar de todos os aspectos do desenvolvimento humano, mas resgatar alguns aspectos facilmente esquecidos e oferecer alguns ingredientes sobre o que significa desenvolver-se como pessoa a partir de uma visão cristã. O conceito cristão de pessoa vem do início da história bíblica onde lemos que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Em linguagem mais teológica, somos portadores da imago Dei.

Além de nos conferir uma dignidade inerente, visto que temos uma semelhança exclusiva com Deus que o restante da criação não tem, portar a imago Dei também significa que fomos criados para funcionarmos de determinada maneira e para cumprirmos com certos propósitos. Afinal, ninguém usa uma tesoura para martelar, ou martelo para comer porque não foram feitos para isso. Então, para que fomos feitos? Qual é o nosso propósito?

O pastor e teólogo Ed René Kivitz, no seu excelente livro Vivendo Com Propósitos, resume os propósitos bíblicos para cada ser humano em quatro palavras: transcender, crescer, conviver e construir.[2] São propósitos que precisamos cumprir, ou pelo menos caminhar na sua direção, para sermos pessoas plenamente desenvolvidas.

Transcender

Na visão cristã, o ser humano foi criado por um Deus transcendente, poderoso e bom. E sendo portador da imago Dei, o ser humano reflete essas características. É claro que não somos seres transcendentes, da mesma forma como Deus é, mas existe em nós “o anseio pela eternidade” (Ec 3:11), o sensus divinitatus, aquela noção inata de que sabemos que Deus existe e que um dia Lhe prestaremos contas. Por isso a fé cristã entende que o ser humano só será plenamente feliz se viver em relacionamento com Deus.

Uma educação que busca o desenvolvimento integral do educando não pode negligenciar as grandes perguntas da vida. Mesmo que nossos alunos não partilhem da nossa fé, podemos ajudá-los a desenvolverem seu senso de transcendência ao refletirem sobre as suas convicções religiosas, os seus valores éticos, e a sua forma de ver o mundo. A maioria das pessoas não pára para pensar no que de fato acreditam, por que acreditam e nas suas implicações. 

A pergunta crucial que cada ser humano precisa responder é ‘Onde está Deus (ou o Transcendente) da forma como você o compreende?’, ‘De que forma Ele faz parte da sua vida?’ Não se esqueça de que isso é um exercício de conscientização, e por isso precisamos deixar os alunos responderem livremente. Nosso papel é ajudá-los a refletirem sobre sua visão de mundo, a perceberem suas incoerências, a preencherem lacunas. Quando for apropriado e com muita sabedoria, podemos questionar as suas percepções e oferecer alternativas.

Crescer

Somos portadores da imago Dei, mas isso não quer dizer que somos seres estáticos. Somos seres dinâmicos que se movem a um alvo, ou seja, somos seres que crescem. C.S. Lewis descreve isso bem quando afirma que “toda vez que tomamos uma decisão, tornamos um pouco diferente a parte central do nosso ser, a responsável pela decisão tomada. Considerando então nossa vida como um todo, com as inúmeras escolhas feitas ao longo do caminho, aos poucos vamos tornando esse elemento central numa criatura celeste ou numa criatura infernal: uma criatura em harmonia com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma, ou uma criatura cheia de ódio e em pé de guerra com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma. […] Cada um de nós, a cada momento, progride em direção a um estado ou ao outro.”[3]

Pensando assim, a pergunta crucial que cada um precisa responder ‘Que tipo de pessoa estou me tornando?’, ‘É assim que eu quero ser lembrado no meu funeral?’ A primeira coisa que isso requer de nós, educadores, é uma visão do potencial de transformação e crescimento de cada aluno. A partir disso, podemos conscientizar nossos educandos sobre as suas escolhas de vida, os seus padrões de comportamento, e os hábitos sendo formados, mas principalmente podemos oferecer-lhes uma visão positiva e realista de quem eles podem se tornar.

Conviver

Somos seres relacionais. No relato da criação, a única coisa que não era boa era a solidão de Adão (Gn 2:18). Como diz o ditado: “Pessoas precisam de Deus e pessoas precisam de pessoas.” Isso é tão verdadeiro que podemos afirmar que a saúde da nossa vida depende da saúde dos nossos relacionamentos. A pergunta crucial que precisamos responder é ‘onde estão as pessoas que eu amo e que me amam?’

Contudo, se por um lado, temos que desenvolver vínculos de amor e afeto com pessoas próximas, por outro, todos nós somos obrigados a conviver com pessoas que não escolheríamos para ser nossos amigos. Ou seja, conviver vai além de curtir a família e os amigos, mas também é estar em paz com quem é diferente, com aquele que torce para o outro time, com aquele que tem outra visão política, com aquele que tem outros valores morais, e assim por diante. 

Como educadores cristãos, ensinamos, com palavras e ações, que para conviver não é necessário concordar, celebrar ou ignorar as diferenças. É preciso, sim, estender aos outros a dignidade e o respeito com que gostaríamos de ser tratados e ajudar nossos alunos a fazerem o mesmo.

Construir

O fato de sermos criados parecidos com Deus, implica que, respeitando as devidas proporções, também fazemos o que Deus faz. O que Deus mais faz em Gênesis 1 e 2 é trabalhar de forma criativa. Além disso, Deus delegou ao ser humano a tarefa de governar, desenvolver, e preservar o restante da criação. Pensando assim, a pergunta crucial é “Qual é minha contribuição para o mundo?’, ‘Como posso construir um mundo melhor?’

Na visão cristã, isso se dá através do trabalho. Trabalhar, não é uma maldição ou um mal necessário, e vai muito além de ter um emprego ou uma carreira, pois trata-se de uma forma de cooperar com o que Deus está fazendo no mundo. Trabalhar é usar a capacidade e a energia que Deus tem a todo ser humano através da sua graça comum para satisfazer as nossas necessidades e as do nosso próximo de forma honesta.

Como educadores cristãos, queremos ajudar os nossos alunos a terem uma visão positiva do trabalho, estimular o trabalho voluntário e promover uso da sua criatividade, mas principalmente a noção de que eles têm uma contribuição a dar na construção do seu mundo.

Promover o desenvolvimento pleno vai muito além de ajudar o educando a transcender, crescer, conviver e construir, mas estes são alguns ingredientes fundamentais que são facilmente esquecidos. Como cristãos, cremos que cada aluno foi criado a imagem de Deus e portanto tem um potencial tremendo, e queremos dar a nossa contribuição para o seu desenvolvimento integral.



Raphael A. Haeuser
Coordenador do Didaquê
TeachBeyond Brasil

[1] Ver Artigo 205 da Constituição Brasileira (https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm) e a LDB — Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm).</p id=”nota1″>

[2] KIVITZ, Ed René. Vivendo Com Propósitos: a resposta cristã para o sentido da vida. São Paulo: Mundo Cristão, 2003.</p id=”nota2″>

[3] LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.</p id=”nota3″>

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