Mordomia: o que você tem nas mãos? 

Quando ouço as palavras “mordomo”, não posso deixar de pensar na expressão: “A culpa é do mordomo!”  Ela provavelmente vem dos finais previsíveis de romances policiais em que o autor não se deu o trabalho de achar um final interessante para a sua história. Quando ouvimos a palavra “mordomia”, geralmente visualizamos as regalias alcançadas sem muito esforço ou os benefícios que certos funcionários públicos têm, mas que não se aplicam aos demais cidadãos como nós. Não são imagens muito positivas, então em que sentido podemos afirmar que “mordomia” é um valor cristão? E como isso pode ser aplicado à educação?

A palavra ‘mordomo’ vem do latim major domus e significa simplesmente “chefe da casa”. Na época do império romano, quando o Novo Testamento foi escrito, referia-se ao principal escravo da casa, responsável por administrar os assuntos domésticos e manter a ordem na família no lugar do seu senhor.

Nós somos mordomos porque somos criados à imagem de Deus para cuidar da casa dEle, exercendo domínio e enchendo o planeta, cultivando a terra, criando novas coisas (Gn 1:26–28).

Nós somos mordomos, porque de acordo com o Salmo 24:1, tudo pertence a Deus: tanto “a terra” (a ordem criada), quanto “o que nela existe” (as pessoas e a cultura humana).  Uma tradução mais literal de “tudo o que nela existe” seria “tudo o que a enche”, o que no hebraico tem a mesma raiz da ordem de Deus de encher a terra. A criação pertence a Deus, pois Ele é o seu criador e sustentador. A cultura humana também pertence a Deus porque tudo o que venhamos a criar a partir dela tem a sua origem no próprio Deus.

Talvez a passagem bíblica que melhor ilustra isso é a Parábola dos Talentos (leia Mt 25:14–30 antes de continuar). Embora a palavra ‘talento’ em português provavelmente seja derivada desta parábola, a palavra grega original talanton (ou talantoi no plural) é simplesmente uma unidade de medida de peso (cerca de 34kg). Um talanton de prata era equivalente à remuneração de 6 mil dias (ou 20 anos) de trabalho de um empregado simples. O que aprendemos sobre mordomia nesta parábola:

  1. O patrão representa Jesus. Ele é a fonte, e num sentido bem real, o dono de todo e qualquer talanton que venhamos a ter.
  2. Os talantoi representam todas as tarefas e responsabilidades que Jesus nos delegou para desempenharmos entre a Sua ascensão e a sua Segunda vinda, bem como todos os recursos que ele nos concedeu para que as cumpríssemos, como dinheiro, tempo, oportunidades, e claro, talentos mesmo.
  3. Embora os servos não tenham recebido a mesma quantia, cada um recebeu alguma coisa. Todos têm uma tarefa a cumprir, uma contribuição a fazer, um recurso para oferecer ao mundo. A nossa responsabilidade é real, as nossas escolhas importam, o que fazemos tem impacto, embora possa parecer pouco aos nossos olhos.
  4. Há a expectativa de uma certa proatividade e coragem. O verbo ‘aplicar’ (v. 16) se refere a todo tipo de trabalho, da construção civil a atividades culturais, incluindo a compra e venda de imóveis. Como os servos tiveram uma margem de lucro altíssima (o dinheiro foi dobrado), é provável que eles foram ousados e aventureiros nos seus negócios.
  5. Apesar disso, o patrão está mais preocupado com a nossa fidelidade no que Ele nos confiou do que na produtividade. Claro que ser fiel inclui ser eficiente e competente na realização das nossas funções, mas perceba que tanto que gerou 5 talantoi e o que gerou 2 receberam exatamente o mesmo elogio: “Servo bom e fiel”.
  6. Descobrir nossa vocação e contribuição para o mundo é uma fonte legítima de satisfação e realização pessoal. Por um lado, esse sentimento vem do próprio trabalho e dos resultados obtidos. (Perceba a empolgação na forma como os servos mostram os seus rendimentos ao patrão e dizem “veja, eu ganhei mais dois”.) Por outro lado, também vem de saber que estamos participando de algo maior do que nós mesmos, dos propósitos de Deus.

Infelizmente, o que está descrito acima não é a realidade para muitas pessoas. Muitos se assemelham ao terceiro servo, que além de ser improdutivo, foi infiel no uso do talantoi que recebera. A parábola nos mostra que ele não confiava plenamente no seu patrão, era dominado pelos seus medos e não conseguia ver nada além da sua própria zona de conforto. E assim, a parábola nos força a perguntar: “O que temos nas mãos? O que vamos fazer com o que temos nas mãos?

Como educadores, muitas vezes não temos os recursos e as condições ideias para cumprirmos nosso papel. Outras vezes, não acreditamos que os nossos pequenos esforços possam ter algum impacto a longo prazo. Contudo, Deus não nos chamou para tirarmos “leite de pedra” e fazermos o impossível, assim como também não nos responsabilizará pelas decisões equivocadas dos nossos alunos. Deus nos chamou para sermos fiéis “com o que temos nas mãos”, sendo criativos e ousados com o que temos à nossa disposição para cumprirmos com a nossa parte, crendo que Ele vai honrar e abençoar a nossa fidelidade.

A tarefa de auxiliar nossos alunos a desenvolverem as suas aptidões, a adquirirem competência e a discernirem a sua vocação não nos é delegada apenas pelo Estado ou pela legislação educacional, mas pelo próprio Deus. É verdade que alguns alunos terão mais talantoi do que outros, mas todos têm “algo na mão” para contribuir para o mundo, por menor que seja. Além de ensinarmos através do exemplo, sendo bons mordomos, como educadores temos a responsabilidade de ajudar os educandos a terem uma visão positiva do trabalho, a administrarem bem o seu tempo, a desenvolverem os seus potenciais, a despertarem a sua imaginação, e a terem coragem de agir. Se negligenciarmos nosso talanton de ajudar nossos alunos a encontrar os seus, então dessa vez a culpa será mesmo do mordomo.



Raphael A. Haeuser
Coordenador do Didaquê
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