Por que a Crença na Trindade é Importante para a Sala de Aula

Quando criança, às vezes me perguntava: “Os peixes sabem que estão vivendo na água?” Agora, como adulto, penso: “Talvez tanto quanto sabemos que estamos ‘vivendo no ar’.” Essas perguntas e reflexões revelam como muitas vezes estamos inconscientes dos aspectos mais fundamentais da nossa existência. Esse estado de inconsciência não ocorre necessariamente por negligência. Em vez disso, parece ser da própria natureza das coisas essenciais que nossa capacidade de percebê-las e contemplá-las seja limitada. A menos que haja uma interrupção, pode ser que nunca pensemos nelas. Curiosamente, foi uma interrupção que levou a igreja primitiva a considerar Deus como Trino, após o povo de Deus, por séculos, ter aprendido e crido que “O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4). A primeira interrupção foi Jesus declarando claramente: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). A segunda interrupção foi a inegável manifestação do Espírito Santo prometido em Atos 2.

Essas “interrupções” levaram a igreja a se esforçar para formalizar a doutrina da Trindade muito cedo em sua história. Vários credos informais proclamando a Trindade de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo foram formalizados no Credo de Niceia em 325 d.C. (com sua forma final em 381 d.C.). No entanto, mesmo após séculos de formulação e recitação desse credo e do ensino da doutrina da Trindade, ainda percebemos que esse conceito não está imediatamente presente em nossos pensamentos ao refletirmos sobre Deus, nosso relacionamento com Ele e o mundo. Talvez isso ocorra porque é a “água em que nadamos” ou o “ar que respiramos”. Nossa fé se baseia no fato de que tudo o que existe foi criado por Deus, e este Deus é Trino. Portanto, deveríamos encontrar as “impressões digitais” da Trindade em toda a nossa existência.

Se as “impressões digitais” de Deus estão em toda a criação, o que isso significa para mim, como filho desse Deus Trino, ao ensinar na sala de aula?

Seria impossível esgotar as respostas a essa pergunta em um artigo breve como este. Além disso, tentar explicar a doutrina pode facilmente nos levar a complexidades teológicas. Mentes muito mais brilhantes do que a minha continuam a refletir sobre esse tema há séculos e ainda não chegaram a uma conclusão definitiva. No entanto, meu objetivo aqui é enfatizar duas maneiras cruciais pelas quais a Trindade é relevante para nós, professores, na sala de aula.

Relacionalidade como Essência do Nosso Ser

Gênesis narra a criação da humanidade com as palavras: “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’” (Gênesis 1:26a). Esses são os primeiros momentos da existência humana e nos dão um vislumbre da essência do nosso ser. O Deus que nos criou, e cuja imagem fomos feitos, é essencialmente relacional e não um indivíduo isolado. Para criar, Ele disse: “Façamos”.

Como resultado, nós, criados à Sua imagem, também somos essencialmente relacionais. Nós, professores e alunos, somos seres relacionais. Portanto, dizer que o professor não deve ser apenas um transmissor de informação, mas também se relacionar com os alunos de forma holística, não é apenas uma pedagogia eficaz, mas está enraizado em nossa própria essência. Seres relacionais não podem agir unilateralmente; ao contrário, por sua própria natureza, devem agir cooperativamente. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo criaram a humanidade juntos, à Sua imagem e semelhança. Na sala de aula, isso significa que criar ambientes de aprendizado cooperativo ressoa com a parte mais essencial de nós, professores e alunos, como seres humanos. 

Cuidar dos alunos além dos limites das matérias que ensinamos torna-se essencial. Mais uma vez, isso não é apenas uma boa prática pedagógica, mas parte da nossa essência como seres relacionais criados por um Deus relacional. Quem já teve um verdadeiro relacionamento humano percebe facilmente essa verdade. Os relacionamentos não podem ser contidos em caixas fechadas. Nossos relacionamentos de trabalho inevitavelmente nos afetam de maneira pessoal, o que, por sua vez, impacta nossos “relacionamentos pessoais”. Assim, para um professor, preocupar-se com seus alunos além da matéria que ensina reflete o próprio ser relacional do Deus Trino, cuja imagem fomos criados. Negar isso seria negar nossa própria natureza.

Mutualidade como Essência do Nosso Fazer

“Jesus disse novamente: ‘Assim como o Pai me enviou, eu os envio’… ‘Recebam o Espírito Santo’” (João 20:21-22). Esses versículos fazem parte do que frequentemente é chamado de a Grande Comissão do evangelho de João. Os discípulos (e nós) não apenas recebemos a imagem do Deus Trino, mas também fomos chamados a participar da vida e da missão desse Deus. Assim como Jesus foi enviado, Ele também os enviou, e não os enviou sozinhos, mas com o Espírito Santo.

Esses versículos trazem um senso essencial de mutualidade ao nosso fazer — nosso chamado, missão e todas as nossas atividades. Não somos apenas receptores da imagem e semelhança de Deus, mas somos introduzidos à própria vida e atividade desse Deus.

Essa realidade à qual somos convidados — unir-nos à missão de Deus por meio do Seu envio e da Sua presença contínua em nós — significa que, na sala de aula, não estamos apenas ensinando alunos. Também não estamos apenas compartilhando as boas-novas com a esperança de que nossos alunos um dia cheguem à fé em Jesus.

Em todas essas ações e desejos está o chamado para trazer outros à vida do Deus Trino, assim como nós fomos trazidos a essa vida por meio de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Quando ensinamos e impactamos profundamente a vida de nossos alunos, e quando, pela graça de Deus, eles encontram Cristo, estamos conduzindo-os a uma relação de mutualidade surpreendente com o Deus que está em missão, que nos envia à missão e que habita em nós na missão.

As Impressões Digitais da Trindade na Sala de Aula

Embora a Trindade seja uma doutrina essencial da fé cristã, muitas vezes é vista como pouco relevante para a vida cotidiana. No entanto, vemos que as impressões digitais da Trindade estão em toda parte. A Trindade informa a própria essência de quem somos e também fundamenta algumas das melhores práticas pedagógicas para a sala de aula. Espero que, ao continuarmos com nossas funções e responsabilidades diárias como professores, possamos tirar um momento para apreciar o ar que respiramos, a água em que nadamos — a Trindade, que traz relacionalidade e mutualidade como o centro ao nosso ser e ao nosso ensino.

Sonam


Sonam tem laços familiares por toda a região do Himalaia e amizades em vários lugares. Chamado a deixar uma carreira em engenharia e TI para servir diretamente à Igreja, concluiu seu doutorado em Estudos Interculturais no Asbury Theological Seminary em 2024. Por meio de sua pesquisa, ele busca ajudar a Igreja no norte da Índia a entender sua identidade em Cristo, apesar das crescentes tensões políticas, sociais e étnicas. Atualmente, Sonam serve nos Serviços de Educação Superior da TeachBeyond e leciona no Asia Graduate School of Theology (IGSL) nas Filipinas e no New Theological College na Índia. Trabalha como editor para a Asia Theological Association e para o Center for Theological Inquiry in Asia. Além da educação, ama motocicletas, trilhas e badminton (estilo asiático).

Texto original disponível em: https://teachbeyond.org/article/why-belief-in-the-trinity-matters-for-the-classroom

Traduzido por Natália Vergani Cartelli.

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