Mito da família perfeita

Tenho assistido, ao longo de meus 30 anos de ordenação ao ministério pastoral, dezenas de palestras que desafiam o povo de Deus a ter uma “família bíblica”. Sempre que ouço essa frase, sinto um arrepio na alma e penso comigo: “Família bíblica? Qual delas?”

Basta dar uma olhada atenta na árvore genealógica de Jesus para tomarmos vários sustos. Primeiro, temos a família de Abraão, cujas disfuncionalidades são desnudadas em detalhes no Gênesis: profundas discordâncias entre marido e mulher, ódio entre irmãos, preferências paternas, guerra entre nora e sogra, roubo de direitos de herança, tudo isso passando de geração em geração. Logo em seguida, encontramos uma prostituta cananeia, um Davi assassino e adúltero, seu herdeiro Salomão, que se deixa desencaminhar por suas mais de mil mulheres, encontramos ali Manassés, o pior rei da história de Israel, que foi capaz de queimar os próprios filhos no altar de deuses pagãos. E como se isso não fosse suficiente, voltamos ao Éden, o paraíso sem pecado, sem sogros, sem traumas, sem umbigo, sem boletos a pagar e sem dor de cabeça — e a humanidade conseguiu se meter em problemas.

Por isso, proponho a todos que me leem: menos compromisso com nossas idealizações, e mais compromisso com o evangelho. A verdade é que, quando se trata do tema família entre cristãos, o romantismo tem sido o grande desvio que nos desencaminha. O mito da família perfeita tem sido um fardo pesado que deixa muitos perplexos e desorientados quando a realidade atropela o sonho. Nos venderam a eterna lua de mel, nutrimos pensamentos sobre como nossos filhos realizariam nossos sonhos, de que eles nos “contariam tudo” e que metas e objetivos se encaixariam perfeitamente na vida de um grupo de pessoas naturalmente egocêntricas que decidem formar uma família.

E qual é o efeito disso nas nossas comunidades? Primeiro, a gente acredita na lenda e, em seguida, nos sentimos fracassados; depois, a gente disfarça e se esconde atrás de belas fotos. Ocultamos doenças, julgamos os problemas alheios como forma de nos sentir melhor, vivemos sob intensa culpa, criamos nossos filhos em uma bolha.

Eu mesmo me vi quase que levado por essa maneira de agir. Recentemente, recebi um diagnóstico inesperado de câncer de pele. Congelei, tive medo e instintivamente pensei em esconder da congregação que pastoreio. No mesmo dia, tivemos uma reunião de família pela internet, e meu sogro, um homem de oração cuja espiritualidade tenho profundo respeito, me disse: Não esconda nada! Foi o que fizemos, e experimentamos um abraço inesquecível de nossa comunidade. Aquele abraço só foi possível porque resistimos à tentação inconsciente de preservar uma imagem de que “está tudo sob controle”.

Refletindo sobre essa cultura tão forte, entendo que o antídoto é a narrativa do evangelho: Deus chama famílias imperfeitas para uma missão impossível, em que Ele é o protagonista. Não há nada do que nos gloriarmos, nem julgarmos a odisseia do outro, uma vez que fazemos parte da mesma família espiritual. Para isso, quero sugerir alguns caminhos do coração:

1. Uma cultura familiar de arrependimento:

John Pollock, em sua biografia do evangelista Moody, nos conta: “Ele passava horas cuidando do gramado de sua fazenda… seus filhos brincando estragavam tudo com os cavalos. Ele explodia de raiva! Mas à noite subia as escadas com passos pesados, entrava no quarto deles e, com a mão sobre suas cabeças, dizia: — Quero que me perdoem. Não foi isso que Cristo ensinou! — Anos depois, seus filhos disseram que aqueles momentos foram a maior prova de fé que viram nele.”

A paixão por estar certo talvez seja a fonte das maiores feridas dentro de nossas famílias. Sugiro que você, seja qual for sua posição na família, encontre em Cristo esse caminho de paz, pois o curso natural de todo relacionamento não redimido é a inimizade, uma vez que o ego ocupa o primeiro lugar nas ordens do coração. Uma frase tão simples — “Eu reconheço que estava errado” — talvez seja o mais profundo sinal de crescimento espiritual que alguém possa demonstrar.

2. Não deixe as sobras de você para sua família

A filha de um famoso pastor declarou em entrevista a um podcast: “Muitas vezes eu senti que meu pai casou com a igreja e que, para meu pai, a filha dele é a igreja.”

Qual é a causa disso? Um erro básico, mas comum: trocamos a relação pela realização. E Deus nos chamou, em primeiro lugar, para uma relação e depois para realização. Uma das imagens bíblicas da salvação é a reconciliação com Deus. Esquecidos dessa ordem, é comum encontrarmos cristãos extremamente ocupados ao longo do caminho, mas que não encontram tempo para orar. Querem fazer para Deus, mas não estar com Deus.

Tim Keller, em O Significado do Casamento, conta o choque que levou quando, depois de um dia inteiro de trabalho na igreja, encontra sua esposa sentada no chão quebrando uma pilha de pratos de porcelana de seu casamento:

O que você está fazendo? — ele perguntou, confuso.

Você não me ouve. Se continuar a trabalhar desse jeito, vai destruir a nossa família.

Naquele momento, ele aprendeu o que custa para todos nós entendermos: que a família é nosso chamado primário.

Quando me esgoto lá fora tentando conquistar a aceitação que já recebi de Deus, acabo trazendo para casa apenas as sobras de quem sou. Onde está aquela gentileza? Cadê aquela paciência? Aquela fé, onde foi parar? E o encorajamento, para quem será? Espero que haja muito guardado para sua família quando você estiver com eles.

3. Evangelize sua família

A regeneração — a obra de transformação interior que só Deus faz — não é obra de bons pais. Você não tem a chave do coração dos seus filhos. Ainda que você precise educar com sabedoria, a salvação é obra do Espírito Santo. Estar na igreja participando não faz deles convertidos, nem tampouco acampamentos ou qualquer outra programação.

A necessidade de tomarem uma decisão de seguirem a Cristo, o futuro espiritual, o engajamento na edificação do reino são conversas que precisamos ter a tempo e fora de tempo. Confundimos conformidade moral com conversão. Conversão é muito mais que educar bons moços e moças. É a cura da rebeldia essencial contra Deus e sua ordem.

Quero encorajar você, que talvez pense que, por haver cometido muitos erros, seus filhos estão condenados a viver distante de Deus. Ore por eles sem cessar. É Deus quem procura, encontra e traz de volta a casa a ovelha perdida.

Para finalizar, é bem possível que você tenha pensado que eu peguei pesado com os patriarcas e talvez isso o tenha desanimado. Quero lembrar que também escrevi: Deus é o protagonista da missão. Isso me traz muita esperança. Apesar de nossos muitos equívocos, erros e pecados, o Senhor que nos acolheu encontrará uma maneira de nos levar para casa.

Um texto que enche meu coração é Hebreus 11:16. Em meio às histórias turbulentas dos escolhidos de Deus, há uma afirmação que é pura graça para todos nós: “Em vez disso, esperavam uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão, Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles.” (Hebreus 11:16) Ele trabalha em nós, por meio de nós e apesar de nós. Sim, a bênção de Deus subjuga as maldições humanas.

Fabiano Goulart

(1) Tim Keller e Kathy Keller. O Significado do Casamento. pp. 172–173.

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