Entre dragões e heróis: consolo, esperança e reencantamento do mundo na literatura infantil

Abril chega repleto de datas comemorativas relacionadas ao livro e à literatura infantil: Dia Internacional do Livro Infantil (2), Dia Nacional da Literatura Infantil (18) e Dia Mundial do Livro (23). As seções infantis das livrarias exibem estantes cheias de títulos variados: livros de personagens da moda, pop-ups, livros de banho, volumes com quebra-cabeças, diários variados, poesias, clássicos e narrativas de diferentes gêneros. Opções não faltam. Mas fica a pergunta: toda literatura infantil possui o mesmo valor formador? Nem todo livro carrega a mesma força formativa. Há livros produzidos sobretudo para vender e não há necessariamente algo de errado em uma criança buscálos por diversão, desde que não infrinjam a moral. Porém, há livros que são arte. Eles tocam áreas mais profundas da existência, permanecem enquanto outros desaparecem, ampliam o imaginário e apontam para o Criador de toda boa dádiva. Como, então, avaliar quais livros possuem maior força formadora?

Algumas características podem nos ajudar nessa tarefa.

Literatura Infantil para além da infância Em um ensaio intitulado Três Maneiras de Escrever para Crianças, C. S. Lewis afirma: “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem. Uma valsa da qual você só gosta quando está dançando não é uma boa valsa.” [1] Para ilustrar a ideia, Lewis lembra que, quando criança, apreciava limonada, mas só na vida adulta aprendeu a apreciar vinho, sem deixar de gostar da limonada. O amadurecimento, portanto, não exige abandonar antigos gostos, mas ampliá-los. Da mesma forma, uma boa história infantil não se esgota na infância.

Um bom livro infantil não é uma história simplista, criada apenas para transmitir lições ou entreter por alguns minutos. Narrativas desse tipo rapidamente se tornam desinteressantes, pois oferecem pouco além de moralismos evidentes. No fundo, esse tipo de literatura revela um equívoco: o de subestimar a inteligência e a sensibilidade das crianças.

Quando não se limita a transmitir lições ou oferecer entretenimento passageiro, a literatura infantil pode enriquecer profundamente a vida do leitor. As boas histórias tocam aspectos complexos das emoções humanas, dialogando com medos, desejos e esperanças da experiência infantil. A narrativa que realmente forma a criança não ignora essas tensões; antes, reconhece os problemas humanos e aponta caminhos possíveis, tratando a criança com a dignidade de um verdadeiro leitor.

Uma boa história infantil, portanto, pode ser rica e complexa, sem deixar de ser simples em sua forma. Sua linguagem precisa ser acessível à compreensão infantil, ainda que o conteúdo carregue profundidade. Esse equilíbrio exige grande habilidade do escritor: narrar de maneira clara sem empobrecer a experiência humana retratada. Por isso, as histórias que unem simplicidade de linguagem e riqueza de conteúdo costumam atravessar as idades, sendo apreciadas tanto por crianças quanto por leitores mais maduros.

O encontro entre leitor e personagem

Quando uma história toca emoções humanas reais, o leitor deixa de ser apenas um observador da narrativa. A criança passa a se reconhecer nos personagens, em seus medos, desejos, erros e esperanças. É nesse encontro entre a experiência do leitor e a vida narrada que surge a identificação pessoal.

A escritora e estudiosa da literatura infantil Ana Maria Machado descreve esse fenômeno com precisão ao afirmar que, ao ler uma história, “descobrimos nela umas pessoas que, de alguma forma, são tão idênticas a nós mesmos que nos parecem uma espécie de espelho.”[2] Por estarem em outro contexto e serem fictícios, esses personagens criam certo distanciamento, o que permite ao leitor compreender melhor suas próprias experiências.

É justamente nesse encontro entre proximidade e distanciamento que reside parte da riqueza da literatura infantil. As boas histórias falam de algo universal da experiência humana e, ao mesmo tempo, permitem que cada leitor encontre nelas algo de sua própria vida. Pela identificação com os personagens, a criança aprende a olhar para seus próprios sentimentos e desenvolve empatia por experiências diferentes das suas. Muitas vezes, essa identificação acontece por meio de figuras simbólicas como dragões, heróis e princesas, personagens em que características humanas aparecem de forma ampliada. Esses arquétipos tornam visíveis conflitos e virtudes da experiência humana e auxiliam o leitor a reconhecer aspectos de si mesmo. A leitura, assim, torna-se um espaço protegido para viver conflitos, medos e esperanças que talvez nunca fossem experimentados de outra forma.

Ecos do Evangelho

Sabendo que a leitura de bons livros infantis permite esse jogo de proximidade e distanciamento em relação aos personagens e às situações que vivem, torna-se evidente que a boa literatura também influencia a maneira como o leitor aprende a olhar para o mundo. As histórias que habitam a imaginação das crianças tornam-se lentes pelas quais elas interpretam a realidade. Assim, bons livros não apenas divertem; ajudam a formar a visão de mundo do leitor.

As narrativas frequentemente seguem um movimento marcado por momentos de discatástrofe (a virada trágica da história) e de eucatástrofe (a inesperada virada para o bem), descritos por J. R. R. Tolkien.[3] Esse tipo de enredo oferece consolo sem cair no escapismo, pois reconhece a presença real do sofrimento no mundo e afirma que há esperança de redenção.

C. S. Lewis observa que, se é provável que as crianças encontrem inimigos cruéis ao longo da vida, é importante que também ouçam falar de coragem heroica. Para ele, histórias que apresentam reis malvados, dragões e grandes perigos, mas nas quais os vilões são finalmente derrotados, não tornam o mundo mais sombrio para o leitor infantil; ao contrário, oferecem consolo e esperança.


Nesse sentido, as boas histórias ecoam, ainda que de maneira indireta, a grande narrativa do evangelho. Há queda, sofrimento e conflito, mas também uma esperança verdadeira de restauração. No fim, ou melhor, no novo começo de todas as coisas, o dragão é vencido e aqueles que amam a Deus participam do triunfo do verdadeiro Herói, Cristo Jesus.

Nas histórias fantásticas, há um verdadeiro reencantamento do mundo. Ao refletir sobre os contos de fadas, G. K. Chesterton[4] observa que o olhar moderno tende a explicar a realidade como algo inevitável e mecânico. A imaginação, porém, ensina a contemplar o mundo de outra maneira. A folha é verde não apenas por necessidade, mas também como um presente que poderia ter sido de outra cor; a neve é branca e, justamente por isso, desperta maravilhamento. As boas histórias devolvem ao leitor esse olhar e, a partir de elementos simples da realidade, revelam novas possibilidades do mundo que já conhecemos. Assim, longe de afastar a criança da realidade, a literatura imaginativa a conduz a percebê-la com mais espanto, gratidão e esperança, reconhecendo que a beleza do mundo é uma dádiva e, nesse sentido, um testemunho do próprio Criador.

Boas histórias importam

Ao celebrarmos o livro e a literatura infantil neste mês de abril, vale lembrar do privilégio e da responsabilidade que pais e educadores têm ao escolher as histórias que colocam nas mãos das crianças. Boas narrativas atravessam idades, pois não se esgotam na infância, despertam identificação ao tocar emoções humanas verdadeiras, e ajudam a ler o mundo com esperança, trazendo consolo e reencantamento da realidade. Muitas delas, ainda que não tenham sido escritas com essa intenção, ecoam algo da grande história do evangelho.

Além disso, alguns aspectos estéticos merecem atenção: ilustrações que valorizem a expressão artística, boa impressão gráfica, papel de qualidade e texto com contraste adequado favorecem uma leitura agradável. Uma breve apresentação do autor na contracapa e uma linguagem simples, mas capaz de ampliar o vocabulário do leitor, também revelam cuidado e respeito pelo pequeno leitor.

Quando esses elementos se encontram, o livro infantil deixa de ser apenas um objeto de consumo passageiro e passa a cumprir uma de suas mais belas tarefas: formar leitores, ampliar a imaginação, cultivar sensibilidade e contribuir para a formação da cosmovisão da criança.

Letícia Marzall Lippel Westphal

Letícia Marzall Lippel Westphal é pedagoga e professora dos anos iniciais, com especial interesse na formação do leitor por meio da literatura infantil. Atualmente é pós-graduanda em Alfabetização e Letramento à luz da Ciência da Leitura e foi aluna do LiveBeyond em 2015.

[1] LEWIS, C. S. Sobre Histórias. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

[2] MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

[3] TOLKIEN, J.R.R. Árvore e Folha. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

[4] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2012 TAGS: Didaquê Fé Educação; Didaquê Pais e Filhos

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