Vendo o Mundo Através da Ressurreição

Certa vez passamos o domingo de Páscoa com uma família israelense muito querida para nós. Eles cresceram ouvindo a história de como Yahweh libertara os israelitas da escravidão no antigo Egito, mas por serem secularizados, não davam um valor espiritual a ela. Como eles gostam de uma boa conversa e sabem que somos cristãos, eles nos perguntaram:

“Qual é o sentido da Páscoa para os cristãos?”

“Nós celebramos a morte e a ressurreição de Jesus Cristo”, respondi.

“Mas essa ressurreição é aconteceu literalmente na história ou é um símbolo de um novo começo?”

“As duas coisas, e mais um pouco!”

A história que nossos amigos ouviam está registrada em Êxodo 12. Na primeira Páscoa, as famílias deveriam preparar um cordeiro sem defeito algum para ser sacrificado ao pôr do sol. Eles deveriam comer de pé, com “as malas arrumadas” e prontos para sair. Eles partiram naquela mesma noite, e depois de atravessarem o Mar Vermelho estavam livres da opressão egípcia. A fim de que as gerações futuras lembrassem o que Deus havia feito por seu povo, uma refeição semelhante deveria ser celebrada anualmente como um memorial.

Essa tradição continuou até os tempos de Jesus. Ele estava celebrando a Páscoa judaica com os seus discípulos na quinta-feira à noite, ocasião em que foi traído por Judas Iscariotes, julgado pelo Sinédrio, o tribunal superior dos judeus, e condenado por Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia. Para os cristãos, Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal, porque através do seu sacrifício na cruz não somos libertos apenas do Egito, mas do domínio das trevas, da morte e do mal.

O sentido da morte de Jesus está claro para a maioria dos cristãos, mas o que dizer da sua ressurreição? A pergunta dos nossos amigos israelenses é a pergunta de muitos hoje. Ouso a dizer que a resposta é a mesma também.

A Ressurreição Como Fato Histórico

Ao afirmar que Jesus ressuscitou, a Bíblia está dizendo que Jesus voltou a viver corporalmente após ter estado morto por um tempo. É um conceito difícil para a mentalidade secularizada dos nossos dias, mas a historicidade dos relatos bíblicos se confirma a partir de dois elementos: o túmulo vazio e a convicção dos discípulos de que haviam visto Jesus, em carne e osso, e não em uma visão. Se tivéssemos apenas o túmulo vazio, alguém poderia ter roubado o corpo ou talvez os discípulos estivessem olhando no lugar errado. Se tivéssemos apenas o testemunho dos discípulos, eles poderiam estar mentindo ou sofrendo de algum tipo de alucinação. Mas a história da Páscoa cristã somente pode ter surgido se essas duas coisas de fato aconteceram.

Quando alguém quer muito que algo seja verdade, apesar de todas as evidências em contrário, é possível sofrer de dissonância cognitiva e afirmar ainda com mais veemência que tal fato realmente aconteceu. Contudo, para o teólogo e historiador N.T. Wright, isso não poderia ter acontecido com os discípulos de Jesus, por não fazer parte do imaginário deles. Os discípulos, como todos os judeus do século I, esperavam um Messias vivo e vitorioso que desta vez os libertaria do império romano. E quando Jesus morre, eles temem que apostaram suas fichas na pessoa errada (Lc 24:19–21). Além disso, o judaísmo olhava para uma era futura, em que o Reino de Deus, marcado por paz e justiça seria estabelecido e em que todo o cosmos seria renovado. Nessa ocasião também aconteceria a ressurreição em massa de todos os judeus fiéis, e não somente uma pessoa. A ressurreição de Jesus, apesar de ter sido predita por ele mesmo várias vezes, pegou os discípulos de surpresa; eles não tinham os recursos culturais para inventar algo como isso.

A Ressurreição Como um Novo Começo

Entretanto, a ressurreição de Jesus não apenas simboliza um novo começo, mas é de fato o novo começo de todas as coisas. Em Jesus, aquela era futura tão aguardada pelos judeus começa a invadir subversivamente a era presente. A nova criação é semelhante a uma barragem que está prestes a arrebentar, e quando isso acontecer por ocasião da Segunda Vinda, todas as coisas serão transformadas. Mas a partir da ressurreição de Cristo, essa nova realidade começou a transbordar para o mundo em que vivemos, transformando tudo o que tocar.

Quando a realidade da ressurreição de Cristo toca a nossa vida, somos unidos com Cristo de modo que o que aconteceu com Cristo, também aconteceu conosco (Rm 6:1–4). Como crentes em Cristo, recebemos o perdão dos nossos pecados, por participarmos da sua morte; mas também recebemos um novo coração, capacitado a fazer a vontade de Deus, por participarmos da sua ressurreição. Não se trata apenas de uma segunda chance, em que agora precisamos nos esforçar para não vacilarmos novamente, mas de um “novo nascimento”, uma recriação do nosso coração a partir do Espírito do Cristo ressurreto que passa habita em nós.

A ressurreição de Jesus não apenas é uma antecipação do que Deus vai fazer na vida dos seus seguidores, mas também com a criação inteira. Sendo “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1:18; Ap 1:5), a ressurreição de Jesus é a primeira amostra do processo de recriação de todas as coisas. N.T. Wright afirma que a ressurreição

“não é um evento absurdo dentro do velho mundo, mas o símbolo e ponto de partida de um novo mundo’. A reivindicação proposta pelo cristianismo é desta magnitude: que com Jesus de Nazaré não há simplesmente uma nova possibilidade religiosa, nem simplesmente uma nova ética, nem mesmo apenas um novo caminho de salvação, mas uma nova criação.”[1]

Na nova criação, a vida humana na sua totalidade terá elementos de continuidade e descontinuidade com a era atual. O nosso corpo não será espiritual, mas físico, ocupando o tempo e o espaço. Haverá continuidade, pois nosso corpo será reconstituído a partir do material do velho corpo, mas também haverá descontinuidade: ele terá novas propriedades à semelhança do corpo ressurreto de Jesus. A vida na era futura não será um mero retorno ao jardim do Éden, mas em uma grande cidade, cheia de vitalidade.

Isso muda não apenas como vemos o futuro, mas também como vivemos no aqui e agora. Ao contrário do que muitos supõem, viver a partir dessa realidade escatológica não significa que devemos ficar parados e simplesmente deixar o tempo passar até Jesus voltar. Pelo contrário, por termos um novo coração e por sabermos que todas as coisas serão restauradas, somos chamados a viver em santidade e missão, tanto nas nossas vidas pessoais quanto públicas. Somos cidadãos dos céus vivendo como uma prévia, um trailer, um vislumbre desse novo mundo no contexto caído que ainda nos encontramos. É por isso que não deixamos de nos envolver com o mercado de trabalho, a educação, a ciência ou a política, mas nos engajamos nessas esferas de modo diferente das estratégias meramente humanas e corrompidas (2Co 10:4).

Nosso amigos não se converteram ao cristianismo, mas ficamos felizes pela oportunidade de darmos testemunho do sentido cristão da Páscoa. A ressurreição é um fato histórico e um novo começo. Viver a partir da ressurreição é viver a partir da nova realidade que ela instituiu e na esperança de que um dia essa recriação será consumada.


Raphael A. Haeuser 
(@raphaelhaeuser)
Coordenador do Didaquê
TeachBeyond Brasil

[1] WRIGHT, N.T. Surprised by Hope (Surpreendido Pela Esperança). Londres: SPCK, 2007.

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