Existe Espaço para a Dor?
uma reflexão cristã sobre sofrimento, cuidado e presença.
Vivemos em tempos que parecem cada vez menos tolerantes com aquilo que entristece, desorganiza e nos faz parar. Socialmente, o “ser feliz” surge como um direito: “Você merece ser feliz!”. Ou, mais que um direito, uma obrigação: “Você precisa ser feliz”. Aquele que não se mostra feliz — ao menos pelas redes sociais afora — é olhado com desconfiança. E nessa toada, há sempre uma solução, uma dica, um produto que promete eliminar este inconveniente chamado dor, embora ele continue aparecendo.
A expressão extrema dessa realidade se mostra no crescimento significativo das taxas de suicídio no Brasil nas últimas décadas.[1] Fato é que o sofrimento psíquico continua fazendo parte do dia a dia de tantos. E surge a pergunta: o que fazer diante dessa realidade?
Jesus escolheu primeiro escutar
Muito me chama a atenção quando Jesus, mesmo conhecendo o coração e desejos do homem, se coloca a fazer perguntas. “O que queres que eu te faça?”, está entre as minhas favoritas, pois ele não pergunta como fruto de um desconhecimento. Ele sabia, mas desejava escutar.
Há em nós o desejo genuíno de se fazer presente e escutar a necessidade do outro? De ouvir sua dor, sua angústia, seu sofrer? Ou queremos apenas eliminar o sofrimento, resolvê-lo e tirá-lo da nossa vista? E mesmo ao olharmos para as nossas próprias dores, para o sofrimento emocional em nós, estamos disponíveis para encará-los de frente ou buscamos todas as formas de anestesia e fuga para não olhar para isso?
No decorrer das Escrituras, fica claro que o Senhor nunca condenou ou apressou aquele que sofre. No livro de Jó, encontramos alguém que se deparou com uma tristeza profunda frente a tantas perdas repentinas. Diferente dos amigos de Jó, que prontamente tinham algo a dizer, o que, na verdade, apenas intensificou o sofrimento dele; vemos Deus escutando e esperando pacientemente por longos capítulos pelo momento certo de falar.
Semelhantemente, o Senhor não condenou Davi por seus tantos salmos de angústia. Nem Jeremias por seus choros amargos frente às suas frustrações. Nem Elias, quando debaixo do zimbro, clama pelo fim de sua vida. Ele tão pouco repreende nossa dor, nem nos convida a recriminar ou eliminar a do outro também. Mas o que fazer, então?
Cuidar vem antes de responder
Para pensar sobre isso, gosto de olhar para a história da última personagem citada: Em 1Reis 19, quando amedrontado e desanimado frente às ameaças de Jezabel, Elias pede pela sua morte. O primeiro movimento de Deus em sua direção é fazê-lo dormir e oferecer-lhe pão. Depois de dormir e se alimentar, o Senhor o convida a caminhar. Só depois, na caverna, após se mostrar em uma brisa suave, Deus fala com Elias e o orienta.
Por vivermos em uma sociedade hedonista, imediatista e que suporta muito mal o sofrimento, muitas vezes caímos no erro de oferecer muitas respostas antes de fazer perguntas. A psicóloga e escritora Maria Rita Kehl propõe pensar sobre a depressão contemporânea também como um sintoma social.[2] Sintoma, este, que denuncia nossa relação como sociedade com o tempo. Em uma cultura marcada pela aceleração, pela urgência e pela exigência de produtividade, pode faltar justamente aquilo que o sofrimento mais exige: tempo para parar, escutar, elaborar, sentir, refletir e dar sentido à experiência.
O Senhor não chega a Elias com condenação e silenciamento. Não o repreende por estar exausto e com medo. Não o apressa. Não diz: “Você acabou de ter uma vitória, por que está assim?”. Não transforma sua dor em uma falha espiritual ou moral. Ele é presença, cuidado, zelando pelo alimento, sono e movimento de Elias. E só depois Ele fala.
Sustentar, não apenas aplicar
O psicanalista Donald Winnicott teorizou sobre o desenvolvimento emocional humano, que só pode ocorrer quando existe um ambiente que ofereça sustentação para aquele indivíduo, o que ele chamou de holding.[3] Esse holding é pensado a partir do cuidado oferecido pelo ambiente ao bebê: os cuidadores não se desesperam nem repreendem o choro de um recém-nascido, mas oferecem uma adaptação suficientemente boa a esse serzinho, buscando entender e suprir suas necessidades. Não o aceleram, mas o ajudam a passar por momentos de tensão e ir desenvolvendo seus próprios recursos para lidar com a vida.
Como “ambiente” que somos uns para os outros, nas relações comunitárias, familiares, educacionais e eclesiásticas, é fundamental pensarmos se estamos oferecendo sustentação (holding), e não apenas lição. A lição é teórica, distante, cita respostas (muitas delas corretas!), exige mais esforço, oração, empenho, mas nem sempre caminha junto. A sustentação permite que o outro chore, sofra, sinta raiva e angústia, sem retalhar por isso.
Essa sustentação pode passar por oferecer pão e cama. Por caminhar (em algumas situações literalmente) ao lado. Por oferecer silêncio — sim — silêncio. Aquele olhar atento de quem presta atenção e verdadeiramente escuta com respeito, considerando a dor do outro como válida e real, mesmo que seja diferente da minha.
Estar presente também é cuidar
Talvez não seja apenas mandar orar mais, mas orar junto; nem mandar ler mais a Bíblia, mas lê-la juntos. Talvez passe por ajudar a procurar profissionais qualificados, psicólogos e psiquiatras, quando necessário. Não queremos romantizar o sofrer! Dizer que a dor tem um tempo e que não buscamos simplesmente eliminá-la com pressa não quer dizer que não devemos buscar formas de alívio, compreensão, cuidado e mudança frente a isso. Muitas vezes buscar tratamento é urgente!
Não estou falando sobre o outro que sofre, mas também sobre lidar com as próprias dores. O não isolamento é o primeiro passo para algum movimento diferente acontecer. É essencial buscar por aqueles com quem se possa ser e que suportem nossa dor também.
Deus, sendo aquele que tudo sabe, frequentemente não responde às nossas orações com extensas falas. E tantas vezes não se apressa em retirar nossa dor. Porque o sofrimento tem um caminho e um processo para ser vivenciado. O Senhor dá sustentação, se coloca junto e, no seu tempo (não no nosso tempo da pressa e do imediatismo), responde como lhe aprouver. Mas sempre, conforme a sua promessa, Ele se faz presente. Não seria a presença, então, uma das nossas melhores respostas ao sofrimento também?
Priscila Aurich Gossenheimer
Priscila é psicóloga e psicanalista, atuando na clínica com adultos. Casada com Nathan e mãe do Frederico, é entusiasta dos encontros e das palavras. É membro da Assembléia da TeachBeyond Brasil, mas, antes e acima de tudo isso: filha amada do Senhor!
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico: Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.
[2] KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2015.
[3] WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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