Guardando a mente em um mundo de influências
Você já se perguntou quanto vale sua atenção? Não de forma figurada ou abstrata, mas literal? Acredito que esse não seja um questionamento recorrente, porém, talvez devesse ser. Vivemos em uma era em que nossa atenção é constantemente disputada. Aquilo a que decidimos dar atenção tende também a exercer maior influência sobre a forma como pensamos, sentimos e tomamos decisões. Por isso a pergunta: “O quanto vale sua atenção?”
Valores exorbitantes são gastos anualmente com o fim de descobrir a melhor forma de tê-la. A economia da atenção explica este investimento do mercado, ao tratar a atenção como um recurso escasso e finito. Dessa forma, pode se deduzir claramente que cada pessoa possui um bem extremamente valioso. Seu valor, porém, não pode ser plenamente explicado pelo valor monetário investido em campanhas publicitárias, mas sim pelo efeito que isso tem sobre nós e nossas decisões.
É justamente aqui que entra o conceito de influência. Influenciar significa exercer uma ação capaz de produzir mudanças em algo ou alguém. Redes sociais, narrativas políticas, neuroarquitetura, assim como familiares, pessoas do nosso convívio, formas de entretenimento e até mesmo a genética, são exemplos de fatores que moldam nossas predisposições.[1]
Somos influenciados por quem convivemos
O contexto de onde viemos também intensifica a atuação de agentes influentes. Nossa origem geográfica e raízes culturais caracterizam o sotaque, a gesticulação, a forma de vestir, as inclinações e a cosmovisão. Isso também vale para o contexto em que nos colocamos ao longo da vida. A escolha das palavras, a entonação da voz e até certos vícios de linguagem costumam refletir os grupos com os quais convivemos.
Isso acontece porque, antes de falarmos, primeiro ouvimos. A explicação para essas repetições, muitas vezes involuntárias, está na forma como nosso cérebro lida com a dinâmica da vida em sociedade. Um dos fenômenos estudados pela neurociência é a chamada “sincronização neural interpessoal” que descreve o fenômeno da sincronização de ondas cerebrais entre duas pessoas. [2] Esse alinhamento da atividade cerebral ocorre devido a interações significativas, gerando uma sincronia comportamental. O fato de convivermos constante e intensamente com algumas pessoas, como é o caso de irmãos, melhores amigos e cônjuges, desencadeia este tipo de movimentação neurológica.
Somos influenciados pelo que observamos
A função dos neurônios-espelho assemelha-se ao processo citado acima, porém estes estão intimamente ligados com a visão e o movimento, mais especificamente a aprendizagem por imitação. [3] Isso é o que acontece com as crianças na fase de aprendizado: elas aprendem a andar porque primeiro viram como se faz e desenvolvem a linguagem a partir do espelhamento do comportamento dos adultos. Esses mecanismos desempenham uma função crucial no crescimento e nas relações do ser humano. Apesar de os neurônios-espelho serem notórios no desenvolvimento infantil, seu desempenho permanece indispensável para a evolução e adaptação do ser humano em incontáveis novas circunstâncias de vida.
Por fim, também podemos citar o “efeito camaleão” descrito pela psicologia social.[4] Trata-se da tendência de ajustarmos nossos comportamentos convencionais ao nosso grupo social a fim de sermos aceitos. O efeito camaleão produz no indivíduo algo como autocensura, ou seja, modificamos a forma de falar, agir ou até pensar para favorecer nossa integração ao grupo. A aceitação é um motivador poderoso porque o desejo de pertencer faz parte da natureza do ser humano, e a menor evidência de exclusão ou rejeição já é razão suficiente para desencadear mudanças em nosso comportamento. [5]
Somos influenciados pela Cultura
Quando se fala em influência, a cultura ocupa um lugar determinante. A esse respeito, o teólogo e pastor Augustus Nicodemus observa que alguns evangélicos ignoram ou desprezam a presença da influência do mundo na cultura. Ele afirma: “Os cristãos acrescentam um item a mais a qualquer definição de cultura, que é a sua contaminação. Não existe cultura neutra, isenta, pura e inocente. Ela reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõem, ou seja, uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe”.[6]
A Necessidade de Discernir as Influências
Até aqui, vimos que diferentes influências têm o poder de moldar nossos pensamentos e comportamentos. Entretanto, a energia investida na alteração de comportamento tem potencial para gerar resultados positivos ou negativos, dependendo do fim desejado. Por isso, é essencial olhar para o versículo de Romanos 12:2 que diz: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Este versículo nos chama a sermos zelosos em desenvolver um discernimento a respeito do que o mundo oferece, o que é acatado e vivido na vida comum e ordinária de cada um.
Spurgeon complementa, lembrando-nos de que, se quisermos seguir integralmente o Senhor, devemos ser zelosos quanto ao que permitimos nos influenciar, especialmente ao que nos conduz à conformidade do mundo e seus prazeres. Assim, é de grande importância que a vida dos filhos de Deus seja bem policiada por seu caráter cristão, a fim de preservar a santidade.[7] O texto de 1João 2:15-16 reforça a postura adequada do cristão diante das influências deste mundo – “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — o desejo da carne, o desejo dos olhos e a arrogância da vida — não provém do Pai, mas do mundo.”
Se a ciência nos ajuda a compreender como as influências moldam nossa mente e nosso comportamento, a Escritura nos orienta sobre quais influências devemos cultivar. Por isso, é necessário cercar-se de boas influências, buscando na palavra de Deus e na comunhão com Cristo a renovação de nossa mente para podermos provar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.
Samantha Escoriça
[1] Saiba mais com Paul Headley-Johnson em “The Impact of Social Media on Health Behaviors, a Systematic Review.”; Sarah Abbas em “Neuroarchitecture: How the Perception of Our Surroundings Impacts the Brain”; Jordan Peterson em Doze regras para vida e em M. McGue e TJ Bouchad Jr. “Genetic and environmental influences on human behavioral differences.”
[2] Hu Y, Hu Y, Li X, Pan Y, Cheng X. “Brain-to-brain synchronization across two persons predicts mutual prosociality.
[3] O que é, o que é? https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-eo-que-e-4/.Acesso em 10 de julho de 2026.
[4] T.L. Chartrand & J.A.Bargh.“The chameleon effect: the perception-behavior link and social interaction”.
[5] “O que é o sentimento de pertencimento?” Jornal da USP , 12 de abril de 2023, https://jornal.usp.br/radio-usp/sentimento-de-pertencimento-ea-necessidade-demanter-relacoes-estaveis-e-de-moldar-o-comportamento/.
[6] “Augusto Nicodemos fala sobre o relacionamento dos cristãos com a cultura”. Guiame , 31 de maio de 2014, https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/augustusnicodemus-fala-sobre-o-relacionamento-dos-cristaos-com-a-cultura.html.
[7] Charles H Spurgeon. Dia a dia com Spurgeon. 2ª ed., 2021.
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